quinta-feira, 21 de maio de 2009

MS é o "campeão" em assassinato de índios em 2008, revela CIMI

21 de Maio de 2009 - 06:34

MS é o "campeão" em assassinato de índios em 2008, revela CIMI
Dourados News


Dos 60 assassinatos de indígenas ocorridos no Brasil inteiro em 2008, 42 vítimas eram Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Os outros assassinatos ocorreram no Maranhão (3), Minas Gerais (4), Alagoas (2), Pernambuco (2) e Tocantins (2). Os dados são do Relatório de Violências Contra Povos Indígenas 2008 (leia aqui), divulgado pelo Conselho Indígenista Missionário (Cimi).

Em 2003 foram 13 assassinatos no Mato Grosso do Sul, em 2004 foram 16, em 2005 foram 28, mesmo número de 2006. Em 2007foram 53 e no ano passado 42, o que representou 70% de todos os assassinatos de indígenas no Brasil. Nesse número, a maioria dos casos foi de assassinato entre os próprios indígenas, por desentendimentos ou vingança.

Segundo o relatório do Cimi, em 2008 houve ainda no Mato Grosso do Sul, 16 ocorrências de tentativas de homicídio, com 21 vítimas individuais e dois casos em que grupos de indígenas foram atacados por tiroteios.

Entre os Guarani Kaiowá, sete casos foram motivados por briga ou por roubo. Não-indígenas foram responsáveis por cinco tentativas de assassinatos nessa região. Em quatro casos a autoria não foi confirmada. Em todas as tentativas de assassinato praticadas por indígenas foram usadas armas brancas (facas ou outro objeto cortante).

“Destaca-se, ainda no Mato Grosso do Sul, o caso dos seguranças de uma fazenda, atirando contra indígenas que colhiam lenha, em local fora desta propriedade. Chama atenção o comportamento de representantes de órgãos públicos. A administradora regional da Funai foi a uma reunião em escola da aldeia Jaguapiru acompanhada por Agentes da Operação Sucuri. Na ocasião, os policiais atiraram contra o cacique Renato de Souza”, lembra o relatório.

Homicídio culposo

Houve quatro registros de homicídios culposos, quando não há a intenção de matar, em casos de acidentes e atropelamentos de indígenas.

Suicídio

Os suicídios também aumentaram de 2007 para 2008, de 28 para 34 (21% a mais). Dos 34 suicídios, apenas dois foram cometidos por mulheres. Em quatro casos não consta o gênero do indígena, nos demais 28 casos tratam-se de homens.

Suicidou-se uma pessoa ingerindo veneno, duas pessoas– um pai e um filho – utilizaram uma arma de fogo, uma pessoa se estrangulou e os demais (30) se enforcaram, utilizando corda, camisetas, cintos, panos e um fio elétrico. Em seis casos, o indígena havia consumido bebidas alcoólicas.

“Observa-se que o número de vítimas menores de 18 anos diminuiu de 13 para nove no último ano. Ao contrário, o número de suicídios de adultos aumentou de seis para 25. Mesmo assim, trata-se, na maioria dos casos, de adultos jovens, visto que 19 dos adultos tinham entra 18 e 27 anos. Ou seja, 27 das 34 vítimas tinham menos de 27 anos”, explica o relatório.

Por que eles se suicidam?

O Cimi tentou explicar a razão. “O suicídio costuma acontecer quando um problema psiquiátrico ou psicológico é somado a alguma forma de estresse intenso. Tendo em vista a realidade vivida pelos Guarani Kaiowá, o fator de estresse intenso está onipresente. Como foi apresentado neste relatório, vivem extremamente confinados, enfrentam desemprego ou exploração no emprego, convivem com a pobreza, fome, falta de assistência, rejeição da sociedade envolvente, abuso de álcool, violência, desestruturação social e, para completar, falta perspectiva. Portanto, na vida dos Guarani Kaiowá é necessário apenas um problema de ordem mental para criar as circunstâncias para um suicídio”, disseram os técnicos.

Parece brincadeira...

O relatório foi divulgado na mesma semana em que um Doutor em antropologia social pelo Museu Nacional no Rio de Janeiro e professor pela Universidade Federal da Paraíba, o antropólogo Fábio Mura - que desde 1991 estuda a etnia Guarani Kaiowá – disse que os 34 índios da etnia que cometeram suicídio no ano passado em Mato Grosso do Sul fizeram isso não só pela falta de terras, mas também por "amor e paixão".

Segundo ele, paixão, o amor proibido e o conflito de gerações afetam tragicamente os Guarani Kaiowá. “Não dá para dizer que seja efeito direto e simples da falta de espaço. Existe uma conjunção entre esses fatores estressantes para a organização social e fatores mais íntimos, que vêm da educação, da visão cosmológica dos Guarani Kaiowá, em que o indivíduo em sua formação psicológica é muito contido, fechado e suscetível às relações afetivas dentro do mundo doméstico”, afirmou o antropólogo em entrevista à Agência Brasil.

Ainda conforme Mura, muitos jovens indígenas dizem que o homem branco sabe lidar com a paixão, mas eles não. Por causa disso, até jovens e crianças Guarani Kaiowá cometem suicídio. “Há registros de suicídio de uma menina com nove anos. Os conflitos geracionais fazem com que o jovem queira fugir do controle social, que é esmagador dentro do contexto familiar. (...) Quando ocorre uma briga com a mãe ou com o pai, em situação pública especialmente, em que o jovem sinta-se ridicularizado ou maltratado, ele pode atingir um estado que chama nhemyrô”, explica.

O nhemyrô é uma profunda mágoa, que causa perda da consciência e leva a pessoa a sentir-se chamada pelos espíritos de companheiros que se suicidaram ou estão mortos. “

Desabafo

"Nós estamos amontoados em pequenos acampamentos. A falta de espaço faz com que os conflitos fiquem mais acirrados, tanto por partes dos fazendeiros que querem nos massacrar, quanto entre os próprios indígenas que não tem alternativa de trabalho, de renda, de educação", lamenta a liderança Anastácio Peralta.

Anastácio avalia que os assassinatos e suicídios entre indígenas acabam gerando maior preconceito contra as comunidades. "Com isso, os meios de comunicação divulgam só as brigas e mortes, mas não analisam como estamos vivendo. A polícia vem rapidamente prender um índio que fizer algo errado. Mas se algo for feito contra ele, não são tomadas providências".

A população Guarani Kaiowá é composta por mais de 44,5 mil, de acordo com dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) de 2009. Desse total, mais de 23,3 mil estão concentrados em três terras indígenas (Dourados, Amambaí e Caarapó), demarcadas pelo Serviço de Proteção ao Índio (criado em 1910 e extinto em 1967), que juntas atingem 9.498 hectares de terra.


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ufa as armas eram utilizadas para caça dos índios

ufa as armas eram utilizadas para caça dos índios

/ brasil / Operação da PFCELULAR RSS O Portal de Notícias da Globo

20/05/09 - 16h14 - Atualizado em 20/05/09 - 16h14

PF apreende dez armas em aldeias indígenas no ES
Delegado disse que vai apurar se armas eram usadas para caça ou crimes.
Ninguém foi preso na ação, que foi acompanhada pela Funai e PM.

Do G1, em São Paulo
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A Polícia Federal (PF) apreendeu dez armas e munições durante uma operação em duas aldeias indígenas em Aracruz (ES), nesta quarta-feira (20). Ninguém foi preso na ação, que foi acompanhada por representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e pela Polícia Militar.







PF apreende dez armas em aldeias indígenas no ES (Foto: Divulgação/PF)



O delegado da PF Fernando Amorim, responsável pelas investigações, explicou que houve um aumento no número de ocorrências de furtos e assaltos nas aldeias Caieiras Velhas e Irajá, de índios da etnia tupiniquim. As investigações ainda apontaram indícios de tráfico de drogas e prostituição dentro das aldeias.



“Fizemos um levantamento de todos os moradores das aldeias para tentarmos localizar o foco de criminalidade. Cumprimos mandados de busca em apreensão em seis residências, onde encontramos as armas. Nenhuma quantidade de droga foi apreendida”, afirmou Amorim ao G1.



Segundo o delegado, a PF vai investigar se as armas eram utilizadas para caça dos índios ou foram usadas em crimes.


Os materiais apreendidos foram encaminhados à sede da Policia Federal em Vila Velha (ES), onde ficarão à disposição da Justiça. A Polícia Militar informou que vai passar fazer o policiamento nas aldeias.


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terça-feira, 19 de maio de 2009

Respeito

Respeito

"Se achamos que o nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela terra é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas se acreditarmos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro da sua própria família, e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar."
(Claudio Villas-Bôas ; sertanista)
"O índio estacionou no tempo e no espaço. O mesmo arco que ele faz hoje, seus antepassados faziam há mil anos. Se eles pararam nesse sentido, evoluíram quanto ao comportamento do homem dentro da sociedade. O índio em sua tribo tem um lugar estável e tranquilo. É totalmente livre, sem precisar dar satisfações de seus atos a quem quer que seja. Toda a estabilidade tribal, toda a coesão, está assentada num mundo mítico. Que diferença enorme entre as duas humanidades: uma tranquila, onde o homem é dono de todos os seus atos. Outra, uma sociedade em explosão, onde é preciso um aparato, um sistema repressivo para poder manter a ordem e a paz dentro da sociedade."
(Orlando Villas-Bôas ; sertanista)
"As diferenças superficiais entre os homens encobrem uma unidade profunda."
(Claude Lévi-Strauss; antropólogo)
"O índio brasileiro tem direitos. Direitos definidos na Constituição. Eu insisto neste ponto, na existência de direitos, porque tenho ouvido e lido palavras a respeito da conveniência de respeitar esses direitos. No momento em que eu abandono a Constituição, acabou o Direito, acabou a Justiça, acabou a paz social. Não há inconstitucionalidades convenientes"
(Dalmo Dallari ; jurista)
"Em vários grupos indígenas brasileiros se encontra a visão de que é preciso 'amansar o branco', fazê-lo ver que a vida não pode fundar-se na devastação."
(Washington Novaes; jornalista)
"Um parâmetro para medir a felicidade é a capacidade de sorrir. Os índios têm essa capacidade de sorrir e brincar, talvez pelo desapego a algumas coisas as quais estamos presos."
(Sidney Possuelo; sertanista)
"São comuns as narrativas em que os índios aparecem como irresponsáveis predadores da própria natureza em seu todo; matando, destruindo, incendiando. Absurdo. Como ninguém, eles se consideram parte da Natureza em que vivem, têm por ela um respeito que nossa civilização perdeu há muito tempo."
(Orlando Villas-Bôas ; sertanista)
falando sobre o passado: "Nenhum povo pode deixá-lo perecer antes de haver tomado consciência, inteiramente, de sua originalidade e de seu valor, e antes de tê-lo memorizado. Isto é uma verdade geral, porém mais ainda no caso desses povos que se encontram na situação privilegiada de viver seu passado no momento exato em que, para eles, um futuro diferente se delineia."
(Claude Lévi-Strauss; antropólogo)
"Os índios não têm o fanatismo da verdade. Várias versões discrepantes sobre os mesmos eventos são perfeitamente assumidas."
(Darcy Ribeiro ; antropólogo, no livro 'Diários Índios')
sobre os índios Guarani-Kaiowá: "... em poucos povos se testemunha uma religiosidade tão intensamente vivida: queremos ser deuses, eles dizem; mas só somos homens"
(Pierre Clastres ; antropólogo)
"...há também o grave problema do relacionamento entre os índio e o elemento humano vindo de fora, isto é, o civilizado. De que forma se poderia conciliar as duas sociedades ? Uma estável, ajustada ao meio, equilibrada, apoiada em padrões culturais bem definidos; e outra adventícia, desordenada, que chega para transformar florestas em pastagens e cujos membros não mantém entre si nenhum vínculo, exceto o mesmo e constante propósito de obter lucros."
(Orlando Villas-Bôas ; sertanista)
"É muito difícil entender outra pessoa. Às vezes são línguas, comportamentos diferenciados que não conseguimos entender, mas isto não é importante. O importante é respeitar, vamos respeitar o diferente. Somos seres humanos; passamos 60, 70 anos nesta terra e depois vamos embora. Devemos então ter solidariedade."
(Sidney Possuelo; sertanista)
"Por quê não perpetuar, mesmo colocando-os somente por escrito, velhos hábitos e costumes que estão de toda forma condenados ? Quanto menos lhes prestarmos atenção, mais depressa hão de desaparecer. Nós mesmos, em alguns períodos de nossa história, não teremos cedido às mesmas ilusões e fomos obrigados, mais tarde a multiplicar esforços para reatar com um passado cujas raízes havíamos querido cortar?"
(Claude Lévi-Strauss; antropólogo)
"Poderíamos dividir os políticos: aquele que vê as razões do índio e aquele que vê o problema em função dos seus próprios interesses."
(Orlando Villas-Bôas ; sertanista)
sobre críticas à atividade fotográfica em aldeias indígenas: "É algo que dói ouvir, mas não me sinto atingida e jamais me desmotivei por isso. Tenho convicção de que não levei elementos negativos a nenhum desses lugares. Isso não tem relação com a fotografia em si, mas com a qualidade do ser humano que para lá se dirige, ou seja, com a integridade da pessoa e com sua postura ética. Podem ser fotógrafos, antropólogos, geólogos, o que quiser - e obviamente políticos também. Temos de considerar sua postura frente ao ser humano em sua totalidade."
(Claudia Andujar ; fotógrafa)
sobre o povo Guarani: "Eles são muito mais abertos do que nós para aprender as coisas dos outros, eles dialogam com a gente. O dialogo intercultural não somos nós que fazemos, são eles. Quantos de nós falamos Guarani? E quantos deles sabem português? A maioria. Eles aprendem, mas também estão escolhendo não sair do modo de vida deles. É uma escolha positiva, não é porque não saibam sair, é que não querem sair. Estes povos são exemplos pra nós de dialogo intercultural, que não e botar água no vinho e fazer uma coisa que não é nem água nem vinho. Diálogo cultural é beber água e beber vinho."
(Bartolomeu Meliá ; jesuíta)
"Eles (os índios) precisam ser ouvidos e não tutelados ou tratados arbitrariamente. Os índios não estão em vias de extinção. Se encontram, como grande parte da população, sob risco de miséria, de falta de assistência médica, educação, e de incentivo a práticas de geração de renda. Mas continuam aumentando sua população e etnias, totalizando hoje cerca de 700 mil (pessoas)."
(João Pacheco de Oliveira; professor do Departamento de
Antropologia do Museu Nacional / UFRJ)
"O que mais me chamou atenção no (Parque Indígena do) Xingu foi a doçura das relações. As pessoas daquele lugar são uma maravilha! Fui para lá acompanhado de um assistente, que é francês, e ele disse uma coisa engraçada e que caracteriza bem o clima de lá: 'aqui a gente não viu nem cachorro brigar, não é Sebastião!'. E foi assim mesmo, a gente não viu agressividade entre as pessoas, o que é tão comum hoje em dia em vários lugares do planeta, não é mesmo ? Mas lá não tinha."
(Sebastião Salgado; fotógrafo)
sobre os índios: "Sabe da civilização que vem e é inevitável, mas nem suspeita do seu horror, que virá destruir a adaptação ecológica e a convivência solidária que têm, raríssima. Nossa civilização é incapaz de criá-las ou preservá-las. No mundo inteiro seu papel foi destruí-las, empobrecendo, apropriando, dizimando os povos que encontrou."
(Darcy Ribeiro; antropólogo)



Iandé - Casa das Culturas Indígenas: rua Augusta 1.371 , loja 07 - Galeria Ouro Velho - São Paulo
Horário de funcionamento: segunda a sexta das 10:00 às 19:00h ; sábado das 9:00 às 14:00h
fone: (11) 3283.4924 email: iande@uol.com.br

Pensamento Indigenas

Pensamento Indígena e Tradicional

"Eu dou um recado para vocês brancos, para que não poluam os rios. Porquê isso vai afetar o futuro não só dos índios mas dos filhos de vocês também."
(Aritana Yawalapiti ; líder do povo Yawalapiti, do Mato Grosso)
"Nós índios, olhamos para esse mundo do homem branco e verificamos que essa civilização não deu certo."
(Marcos Terena ; do povo Terena, do Mato Grosso do Sul)
"Antes nós não sabíamos que tínhamos limites, só sabíamos que tudo era floresta... Agora demarcamos nossa área porquê é só o que sobra dos lugares antigos."
(Kumai ; índio do povo Waiampi, do Amapá)
"Não digo: eu descobri essa terra porquê meus olhos caíram sobre ela, portanto a possuo. Ela existe desde sempre, antes de mim."
(Davi Yanomami ; pajé e líder do povo Yanomami)
"Eu não fico deitado sem pensar."
(Rupawê; velho sábio do povo Xavante, do Mato Grosso)
"No dia em que não houver lugar para o índio no mundo, não haverá lugar para ninguém."
(Aílton Krenak ; do povo Krenak, de Minas Gerais)
"Você vai me dizer: o índio tá falando mas é selvagem; selvagem é vocês, milhares de anos estudando e nunca aprenderam a ser civilização. Pra que você está estudando ? Pra destruir a Natureza e no fim destruir a própria vida ?"
(José Luiz Xavante)
"Eu lutei, mas a guerra não é necessária, não resolve nada. Guerra é coisa de gente cabeça dura que, mesmo com estudo, não pensa. O que resolve é o amor."
(Aurélio Jorge Terena; índio do povo Terena, que lutou pelo Exército Brasileiro na Itália, durante a II Guerra Mundial)
"Nós os índios, sempre cantamos e dançamos nas nossas cantorias, como forma de manter a unidade do nosso povo e a alegria da comunidade. Se a gente cantar e dançar, nós nunca vamos acabar."
(Verônica Tembé; líder da aldeia Tekohaw, do povo Tembé)
"Para nós indígenas, a palavra é de grande valor. É através das histórias contadas pelos mais velhos que mantemos viva a nossa identidade e firme a memória da nossa história, o uso e o cuidado com a nossa terra sagrada. Mas, descobrimos nesses 500 anos de colonização que para os não-índios a palavra não vale nada."
(Carta do Ororubá; IV Assembléia Geral do povo Xukuru do Ororubá)
"Queremos que a floresta permaneça silenciosa, que o céu continue claro, que a escuridão da noite caia realmente e que se possam ver as estrelas. As terras dos brancos estão contaminadas, estão cobertas de uma fumaça-epidemia xawara que se estendeu muito alto no peito do céu. Essa fumaça se dirige para nós, mas ainda não chega lá, pois o espírito celeste Hutukarari a repele ainda, sem descanso. Acima de nossa floresta o céu ainda é claro, pois não faz muito tempo que os brancos se aproximaram de nós. Mas bem mais tarde, quando eu estiver morto, talvez essa fumaça aumente a ponto de estender a escuridão sobre a terra e de apagar o sol. Os brancos nunca pensam nessas coisas que os xamãs conhecem, é por isso que eles não têm medo. Seu pensamento está cheio de esquecimento. Eles continuam a fixá-lo sem descanso em suas mercadorias, como se fossem suas namoradas."
(Davi Yanomami ; pajé e líder do povo Yanomami)
sobre o homem branco: "O mundo deles é quadrado, eles moram em casas que parecem caixas, trabalham dentro de outras caixas, e para irem de uma caixa à outra, entram em caixas que andam. Eles vêem tudo separado, porque são o Povo das Caixas...."
(frase de um pajé do povo Kaingang, recolhida por Lúcia Fernanda Kaingang)
"Não compreendemos porque uma filha dos Kaingang precisa estudar leis escritas e aprender saberes que não são nossos. O que você precisa saber que nossos velhos não podem lhe ensinar ? O que se pode aprender de um Povo que não respeita seus anciãos e abandona suas crianças ? Para que irá um Kaingang estudar leis feitas por estranhos, leis que eles mesmos não cumprem ? Não! Nunca compreenderemos que a lei não seja conhecida por todos, porque nossas leis não são escritas, mas são cumpridas porque são sagradas."
(frase de líderes do povo Kaingang registradas em 1995 por Lúcia Kaingang, advogada indígena, quando decidiu estudar Direito)
"Eu acho que o branco vai resolver problema do branco. Quem vai resolver meu problema é eu."
(Raoni ; líder do povo Caiapó)
"...Esta terra, aqui, era nossa. E agora eles comeram. Agora está tudo feio. Eu estou triste de ver o que foi feito aqui, o que a mão do branco fez. O lugar onde eu nasci. Destruíram tudo. Isso aqui era parte da nossa terra. Aqui, era uma terra boa. Eu não gosto do trabalho dos garimpeiros. Vocês mataram a floresta. O rio acabou. Acabaram os peixes. (...) Por quê o chefe de vocês mandou destruírem essa terra ? O chefe de vocês tem que entender que vocês não podem ir pra nossa terra. Eu não gosto de destruição. Eu não gosto disso aqui não. Eu nasci aqui. Eu caçava aqui. Pescava aqui. Aqui, era minha terra. Não é a terra de vocês. (...) Olha essa terra aqui. Eles comeram o lugar onde eu nasci. Tudo acabou. (...) Eu vou explicar pro chefe dos brancos que vocês acabaram com tudo, com a floresta e com a água."
(Aké Panará ; líder do povo Panará. Em 1974 esses índios foram transferidos de sua terra original por causa da construção da rodovia Cuiabá-Santarém. Dezoito anos depois, Aké retornou à sua terra, uma floresta que se transformara num garimpo abandonado, e não conteve seu desabafo.)
"... a preservação da cultura indígena, em vez de barrar o progresso, como dizem alguns caçadores de índio, estará salvando nosso país da destruição de muitos valores, provocada por essa selvagem civilização tecnocrata."
(Margarida Tapeba ; professora indígena do povo Tapeba.)
"A gente tinha uma insatisfação que não passava. Fomos conversando sobre a força dos nossos usos e costumes. Deu muita vontade de aprender mais, para poder também ensinar um dia. A vida tem que ter um sentido, uma sequência. (...) Hoje eum sei quem sou. Estou em paz. Minha língua, minha cultura, são muito ricas e bonitas. Elas são nossa identidade. Sei da beleza e da força da natureza. Sinto a força do pensamento. Quando ele é firme não existe nada impossível, nem nada superior ou inferior."
(Raimunda Yawanawá ; a primeira mulher do povo Yawanawá a tornar-se pajé, falando sobre os motivos de sua escolha e seu pensamento hoje em dia)

domingo, 17 de maio de 2009

Desocupação da Raposa Serra do Sol termina até junho, diz juiz do TRF

Desocupação da Raposa Serra do Sol termina até junho, diz juiz do TRF
17/05/2009 - 12h38 ( - G1)













foto: Foto: Fausto Carneiro/G1
Crianças da etnia macuxi na Vila Surumu, porta de entrada da reserva índigena Raposa Serra do Sol, em RoraimaDuas semanas após o fim do prazo para a desocupação da Raposa Serra do Sol, representantes do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) continuam na reserva indígena, em Roraima, para cumprir a ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Em entrevista ao G1, o juiz auxiliar do TRF Lincoln Rodrigues de Faria afirmou que até o começo de junho a reserva estará totalmente desocupada pelos não índios.

"Esperemos concluir todo o trabalho até o fim deste mês, o mais tardar no começo de junho", disse o juiz. "As questões mais preocupantes já foram solucionadas. Agora falta resolver algumas questões logísticas", completou Faria, que é membro do grupo que comanda a operação de desocupação da reserva, liderado pelo presidente do TRF-1, Jirair Meguerian. O prazo para a retirada dos não índios se encerrou no dia era 30 de abril.

Lincoln Faria retorna a Roraima na segunda-feira (18). Ele tem se revezado com outro magistrado do TRF na região para garantir o cumprimento da decisão do STF, que, no dia 19 de março, definiu a legalidade da demarcação contínua da área e estabeleceu que apenas índios pudessem habitar a reserva.

Gado

Entre as pendências a serem resolvidas, o juiz destaca a necessidade de retirar pelo menos cinco famílias que permanecem na região. Três delas ocupam o Vale do Miang, localizado na fronteira com a Venezuela. Segundo Faria, esses remanescentes têm prazo até esta quarta-feira (20) para deixarem o local.

O juiz explicou que as famílias de fazendeiros permanecem na Raposa Serra do Sol por serem proprietárias de cerca de 300 cabeças de gado que ainda não obtiveram autorização para serem removidos da área.

A explicação é logística. De acordo com o Lincoln Faria, como a região é montanhosa e de difícil acesso, para o gado sair do local é preciso passar por território venezuelano. A Justiça brasileira já pediu a licença sanitária para o país vizinho, mas ainda aguarda a autorização para iniciar a retirada do gado. Caso o aval não seja obtido, não se descarta a possibilidade de o governo do Brasil comprar o gado e indenizar os criadores.

Além dos não índios que permanecem no Vale do Miang, o juiz disse que outras "duas ou três famílias" continuam em uma das vilas da reserva, aguardando apenas a conclusão de suas novas moradias. Segundo Faria, elas já teriam concordado em se mudar para casas populares em um bairro da periferia de Boa Vista, capital de Roraima, para onde grande parte dos ex-moradores da Raposa Serra do Sol já seguiu.

Outro caso a ser resolvido é o de um senhor de 83 anos, que diz ser filho de uma índia. "Estamos aguardando ele provar que é filho de índio", disse. "Caso ele comprove, poderá permanecer desde que siga os costumes indígenas", explicou.

Balanço

O ministro do STF Carlos Ayres Britto, relator do processo da Raposa em Roraima, autorizou os juízes do TRF1 a assinarem alvarás de liberação dos valores referentes a indenizações de não índios que tiveram que deixar a reserva. Para Lincoln Faria, a medida deve agilizar o processo de reparação dos ex-produtores.

Na próxima sessão plenária do Supremo, marcada para quarta-feira (20) à tarde, Ayres Britto pretende apresentar aos colegas ministros um balanço sobre a desocupação da reserva. Na ocasião, ele deve elogiar a forma como o presidente do TRF-1 conduz a desocupação da reserva. Ainda em março, no dia que o STF concluiu o julgamento da Raposa Serra do Sol, Britto designou Jirair Meguerian como o responsável pela execução da ordem do Supremo.

Exército peruano vai intervir em protestos indígenas na Amazônia

/ mundo CELULAR RSS O Portal de Notícias da Globo

17/05/09 - 10h12 - Atualizado em 17/05/09 - 10h22


Exército peruano vai intervir em protestos indígenas na Amazônia
Exército vai ajudar a polícia a manter o funcionamento de estradas, aeroportos e outros serviços essenciais.

Da BBC
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O governo do Peru autorizou que o Exército apoie a polícia por 30 dias, na escalada de disputas sobre recursos da Amazônia com tribos indígenas.



As forças armadas vão intervir para garantir o funcionamento de estradas, aeroportos e outros serviços essenciais, informou o ministro da Defesa peruano, Antero Flores Aráoz.



Na véspera, manifestantes anunciaram que iam começar uma insurgência para defender seus direitos, mas a ameaça depois foi retirada.



Cerca de 30 mil manifestantes vêm protestando na região da Amazônia peruana há um mês.



O presidente Alan García disse que todos os peruanos devem se beneficiar dos recursos naturais do país, e não apenas "um pequeno grupo de pessoas que mora lá".



"Temos que entender que, quando há recursos como petróleo, gás e madeira, eles não pertencem apenas às pessoas que tiveram a sorte de nascer lá", disse García.



De acordo com a constituição peruana, o Estado é dono da riqueza mineral e de hidrocarbonetos do país.



Territórios antigos
Na sexta-feira, Alberto Pizango, o chefe da organização peruana de índios da amazônia (AIDESEP, na sigla em espanhol), disse que o diálogo com o governo havia sido interrompido.



Segundo Pizango, seus territórios estavam sendo entregues a multinacionais sem que a população tenha sido consultada.



Mas Pizango negou que seu movimento - que reúne 65 grupos indígenas - seja contra o progresso.



"O que queremos é desenvolvimento sob nossa perspectiva", disse ele.



No dia 8 de maio, o governo do Peru decretou estado de emergência por 60 dias em partes da Amazônia peruana, onde manifestantes interromperam serviços de transportes, incluindo aeroportos e pontes.



Há grandes interesses em jogo, segundo o correspondente da BBC em Lima Dan Collyns. No mês passado, a empresa de petróleo francesa Perenco prometeu investir US$ 2 bilhões apenas em um campo de petróleo na selva.



As comunidades indígenas reclamam que cerca de 70% do território da Amazônia peruana está sendo "alugado" para a exploração de gás e petróleo, colocando em risco tanto suas vidas como a biodiversidade da região.



A Amazônia peruana é a maior área da floresta fora do território brasileiro.



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Índios e franceses, o primeiro encontro

atualizar sem data AlertaVoltar para a edição de hojeHISTÓRIA
Índios e franceses, o primeiro encontro
Em 1504, o navegador Binot Paulmier de Gonneville contatou os índios Carijó que viviam no Norte de SCPouco depois de Pedro Álvares Cabral ter dado com a “terra brasilis”, um capitão francês, Binot Paulmier de Gonneville, içou velas em sua pátria na cidade de Honfleur (24/06/1503), e foi, margeando a costa da África, em busca de territórios a serem explorados nas Índias. Para tanto, os marinheiros haviam até contratado dois lusitanos secretamente, os quais conheciam bem a rota. Mas uma tempestade, na altura do Cabo da Boa Esperança, fez com que Gonneville perdesse o rumo e fosse aportar em terras incógnitas.

Mesmo sem ter clareza sobre a região onde estava, Gonneville e sua tripulação desembarcaram da avariada nau L’Espoir (A esperança) e toparam com índios: silvícolas hospitaleiros que os auxiliaram nos reparos da embarcação e no restabelecimento depois de tão penosa viagem. Tal convivência iria se prolongar por seis meses, marcada antes por harmonia e cordialidade. Gonneville estava, com sua tripulação, sem saber, no Sul do Brasil. A agradável convivência entre os franceses da L’Espoir e os índios Carijó (ou, possivelmente, segundo levantamentos do arqueólogo Francisco Silva Noelli, os Jê) constitui-se, conforme Leyla Perrone-Moisés (Vinte luas, Cia. das Letras, 1992), numa página diferente da colonização, pois não foi marcada por agressões. Com efeito, os Jê não eram canibais, portanto não teriam aterrorizado os franceses. Na Páscoa de 1504, o capitão de Gonneville fez, inclusive, que se plantasse uma cruz numa colina, com a ajuda dos índios.

Após seis meses de coabitação, os franceses decidem retornar à Europa. Como todos os descobridores, obedecendo ao costume da época, desejavam levar peças do Novo Mundo consigo, sobretudo a fim de mostrar à corte o que encontraram. Assim, navios partiam cheios de animais, plantas e outras coisas. E até pessoas. Gonneville, por exemplo, obteve autorização do cacique Arosca para levar o mais novo de seus filhos, um índio adolescente de 15 anos, cujo nome era, provavelmente Içá-mirim (Formiga pequena) e que, na pronúncia francesa, transformou-se em Essomericq. Junto dele foi um pajem, Namoa. Arosca via no traslado a oportunidade de seu filho instruir-se na “civilização” dos amigos brancos e o capitão Gonneville prometeu devolver-lhe o filho em “20 luas”, de acordo com a contagem dos tribais.

Mas o retorno foi marcado por desastres: margeando provavelmente Porto Seguro, os franceses toparam com Tupiniquins. Estes eram canibais e acabaram por devorar alguns desavisados que arriscaram descer do navio. Uma segunda parada, mais acima, fez com que vissem, decerto, os Tupinambás, já mais habituados à presença europeia. Os franceses foram, então, mais prevenidos, mas conseguiram abastecer o navio com pau-brasil e algumas riquezas.

Quem, no entanto, dizimou a frota de Gonneville foram piratas no Canal da Mancha. A L’Espoir foi saqueada e naufragou; dos 60 tripulantes iniciais, somente 31 se salvaram. Entre eles, o índio Essomericq. Àquelas alturas, o índio já fora batizado durante o traslado com o nome de seu padrinho, Binot Palmier de Gonneville, pois ficara doente. Seu pajem, Namoa, morrera a bordo.

Pelo trauma dessa viagem, o capitão Gonneville, comerciante, armador, não conseguiu organizar um retorno às longínquas terras tropicais. No entanto, pela palavra empenhada ao cacique Arosca, o capitão viu-se obrigado a dar um destino próspero a seu afilhado. Fez dele, então, herdeiro de suas armas e bens, casando-o com uma parenta. Da possivelmente primeira união oficial entre europeus e índios brasileiros nasceram 14 filhos. E Essomericq chegou a contar 95 anos de vida.

O naufrágio de Binot Paulmier de Gonneville levou-o a fazer uma relação de viagem, dando conta do prejuízo que sofrera e de alguns detalhes do que encontrara. Tal relação só foi encontrada no século 19, em Paris, na Biblioteca do Arsenal; tratava-se de uma cópia autenticada pelos tabeliães de Ruão, respondendo a um pedido compulsório do rei Luís XIV. Esse pedido fora feito para atender a um de seus colaboradores, o influente abade Jean Paulmier de Courtounne, bisneto do índio Essomericq. Explique-se: em 1658, o ilustre cônego fora surpreendido pela cobrança de um imposto, o chamado droit d’aubaine, que os estrangeiros deviam ao rei de França. Somente a relação de Gonneville poderia prestar esclarecimentos à então nobre família que se dizia, sim, descendente de um “príncipe” (lembre-se que Essomericq é filho de um cacique).

O abade foi então solicitar em Ruão uma cópia autêntica da relação, o que lhe foi recusado, pois o documento era secreto já que tratava de descobertas de terras novas. Daí a intervenção do rei Luís 14. Aproveitando a ocasião, o abade escreveu um memorando a fim de obter financiamento para uma nova viagem às terras supostamente descobertas por seus ancestrais em 1504.

Vários empreendimentos foram feitos, mas não se sabia que aquelas terras eram as de Santa Catarina. Os navegantes tiveram de basear-se no que transcrevera o abade Paulmier, e este cometera um erro, dizendo que o capitão Gonneville dobrara o Cabo da Boa Esperança... Assim, todas as expedições malograram. A localização exata das terras descobertas pelo normando veio pelo historiador e geógrafo Armand d’Avezac, que publicou e comentou a Relação de Gonneville em 1869. Esta foi traduzida em português por Tristão de Alencar Araripe em 1886.

A despeito de todas as pesquisas e do bem-constituído livro de Leyla Perrone-Moisés sobre o assunto, levantou-se polêmica sobre a veracidade da viagem empreendida pelo capitão Gonneville e a descendência do índio Essomericq. Tratava-se do resultado de conclusões pessoais do senhor Jacques Levêque de Pontharouart, as quais foram rapidamente postas à prova por estudiosos franceses e vivamente contestadas e descreditadas, pois não possuíam bases sólidas.

No Brasil, o historiador catarinense Amílcar D’Avila de Mello, em sua monumental obra sobre as origens quinhentistas do Estado, dedica um capítulo à viagem de Gonneville. Amílcar indica que haveria possibilidades de que as baías de Guaratuba e Paranaguá fossem o ancoradouro dos pioneiros franceses. Isso não desmente a possibilidade de que tenha sido, de fato, a Baía de Babitonga. Além disso, Amílcar explicita: “Embora ainda não possamos determinar com exatidão o lugar visitado por esses pioneiros, o que está acima de qualquer dúvida, é que eles tocaram um ponto da costa brasileira situado ao sul do trópico de Capricórnio. Nessa região – que chamavam de ‘Índias Meridionais’ – foram recebidos amigavelmente pelos nativos” (Expedições - Santa Catarina na era dos descobrimentos geográficos, volume 1, pág. 159, Expressão, 2005).

A ida do jovem índio à Europa era uma oportunidade para que aprendesse as armas e outros artifícios. Segundo Amílcar D’Avila: “Para os europeus, convinha promover esse ‘estágio’ de indígenas na sua civilização para que a aprendessem bem a sua língua, fé e costumes. Preparados para atuar como mediadores culturais, os nativos ajudariam a relatar aos seus povos as maravilhas que existiam do outro lado do oceano e, dessa maneira, agilizariam a conquista pacífica de suas terras”. (Expedições, pág. 161)

Do lado dos índios, pouco se sabe. O último capítulo do livro de Leyla Perrone-Moisés, intitulado O silêncio de Essomericq, incita à reflexão acerca de porvir desse indígena quando radicado na Normandia do século 16. Aquilo que a pesquisadora denominara como “única página cor-de-rosa” da colonização e que diz respeito ao primeiro índio levado à França é, realmente, ímpar. Nessa história de adoção e aculturação, nada se sabe sobre as impressões do silvícola. Com o tempo, a própria família descendente o incorpora como sendo um “príncipe”, filho de um rei, à sua maneira.

Do lado de cá do Atlântico, onde possivelmente Gonneville encontrou os selvagens, nota-se que a cidade de São Francisco do Sul comemorou os 500 anos de sua fundação em 2004, tomando como base sua descoberta pelos franceses em 1504. Um instituto local, “Binot Paulmier de Gonneville”, convidou, à época, o prefeito de Honfleur para as comemorações. Tem-se uma relação de encantamento mútuo, de um país e de outro, baseada, decerto, no exotismo de um remoto encontro entre índios e franceses que, sem saberem, davam início à globalização. Com suas vantagens e mazelas, sem dúvida.

* Doutora em Literatura Francesa pela USP



POR MÔNICA CRISTINA CORRÊA *